Alimentação correta dos coelhos

A alimentação dos coelhos domésticos não é necessariamente complicada, mas alguns erros podem ser cometidos e acabam afetando a saúde do animal com relativa rapidez.

Os coelhos são folívoros (comedores de folhas). Na natureza, seus parentes selvagens se alimentam principalmente de partes verdes frescas das plantas, brotos e folhas jovens. Como complemento, também consomem raízes e cascas.

Devido ao seu processo de domesticação relativamente recente, os coelhos domésticos ainda dependem essencialmente desse mesmo tipo de alimentação. Por isso, uma dieta adequada deve ser baseada principalmente em vegetais folhosos frescos e outros alimentos compatíveis com as necessidades naturais da espécie.

Nesse caso, o ideal é oferecer pelo menos cinco tipos diferentes de alimentos verdes frescos por dia, provenientes de categorias variadas:

  • Folhas amargas em grande quantidade (escarola, radicchio, chicória, almeirão, frisée, catalônia etc.).
  • Folhas de couve e outras brássicas (couve manteiga, couve-lombarda, repolho pontudo, acelga chinesa etc.).
  • Folhas e ramas de legumes (folhas de cenoura, folhas de couve-rábano, salsão/aipo, ramas de funcho, folhas de couve-flor etc.).
  • Hortaliças (salsa, coentro, endro/dill e outras ervas próprias para consumo humano), menos de 10% da dieta.
  • Galhos e ramos de árvores frutíferas.
  • Gramíneas ou vegetação de pastagem (se a procedência é conhecida).

Necessidade de roer

Os coelhos têm uma necessidade acentuada de roer, que pode ser adequadamente satisfeita com a oferta contínua de alimentos verdes. Quando recebem uma alimentação muito rica em energia, essa necessidade muitas vezes não é plenamente satisfeita e acaba sendo expressa principalmente no ambiente ao redor (roendo móveis ou objetos da casa, tapetes etc.).

Quanto alimento fresco deve ser oferecido aos coelhos?

Muitos tutores cometem o erro de fazer com que, em vez de alimentos verdes (alimentos folhosos e herbáceos), alimentos frescos inadequados (frutas e vegetais mais firmes) representem a maior parte da alimentação. Isso pode causar problemas digestivos e doenças dentárias!

O alimento pode ser pendurado e oferecido em diferentes locais.

Os alimentos verdes devem estar disponíveis continuamente para os coelhos, pois eles consomem repetidamente pequenas quantidades para manter o trato digestivo funcionando de maneira equilibrada. Deve-se oferecer uma quantidade suficientemente grande para que ainda sobrem restos até a próxima alimentação.

Em geral, isso corresponde a cerca de 200 a 500 g por quilo de peso corporal por dia. Ou seja, para dois coelhos com aproximadamente 2 kg cada, seriam cerca de 0,8 a 2 kg de alimento verde por dia.

A Associação Veterinária para a Proteção Animal (TVT) da Alemanha recomenda 200 g de alimento fresco por quilograma de peso corporal por dia. Isso significa que um coelho de 2 kg deveria receber 400 g de alimento fresco por dia. No entanto, alguns coelhos precisam de um pouco mais. A quantidade adequada deve ser avaliada pela quantidade que eles consomem ao longo do dia e da noite.

Se for oferecido pouco alimento verde, de modo que ele não dure até a próxima alimentação, podem ocorrer problemas digestivos. As mudanças frequentes entre alimentos verdes e alimentos secos, como o feno, podem sobrecarregar a digestão.

Além disso, a oferta contínua de alimentos verdes é muito importante para que os dentes se desgastem adequadamente, pois os dentes dos coelhos crescem continuamente e, caso não sofram o desgaste necessário, podem desenvolver problemas.

Feno

Além dos alimentos verdes, é importante oferecer continuamente feno de alta qualidade. Embora os coelhos gostem de feno rico em ervas, recomenda-se escolher um feno que não contenha uma grande quantidade de ervas secas.

O feno deve ser trocado regularmente, pois plantas tóxicas e outros componentes inadequados podem ser deixados de lado pelos coelhos, e a qualidade do alimento disponível no recinto pode diminuir com o tempo.

Galhos e ramos (com folhas) também são especialmente importantes quando a alimentação é composta principalmente por verduras folhosas.

Alimentos complementares

Além da alimentação básica, podem ser oferecidos vegetais de raiz e tubérculos. No entanto, sua proporção na dieta deve ser mantida o mais baixa possível.

Frutas (especialmente frutas locais ou da estação) também podem ser oferecidas ocasionalmente, diretamente da mão, como um petisco.

Água

O ideal é oferecer água fresca em um recipiente de cerâmica estável, que não tombe facilmente. Para evitar que a água fique suja, é melhor colocar o recipiente em um local mais elevado ou sobre uma superfície sem forração.

Bebedouros de bico não são adequados como única fonte de água.

Mudanças na alimentação

As mudanças na alimentação devem ser feitas sempre de forma gradual. Novos alimentos devem primeiro ser testados em pequenas quantidades para verificar se são bem tolerados.

Se quiser mudar a alimentação, uma forma de fazer a transição é, a cada dia, dobrar a quantidade do alimento novo e reduzir pela metade a quantidade do alimento antigo.

Erros na alimentação dos coelhos

Existem alguns erros bastante comuns na alimentação dos coelhos que podem prejudicar seriamente a saúde deles.

As rações comerciais podem fazer mal à saúde

A alimentação contínua com rações comerciais pode deixar os coelhos doentes. Esses produtos costumam conter aromas artificiais e uma quantidade elevada de energia, proveniente de carboidratos, gorduras e proteínas. Isso pode alterar as preferências alimentares dos coelhos, fazendo com que eles consumam em excesso alimentos de baixa qualidade.

A ração seca não faz parte da alimentação natural dos coelhos e pode prejudicar o organismo como um todo. Entre os possíveis problemas associados a esse tipo de alimentação estão diarreia, doenças dentárias, formação de areia ou sedimentos na bexiga e gases. Além dos problemas de saúde, isso também pode resultar em gastos elevados com veterinário.

A lista de doenças que podem ser favorecidas ou desencadeadas por uma alimentação baseada em ração seca é bastante extensa.

  • Doenças dentárias: apenas cerca de 20% dos problemas dentários podem ser identificados simplesmente olhando atentamente dentro da boca. Os outros 80% só podem ser detectados por meio de um exame detalhado sob anestesia, acompanhado de várias radiografias da cabeça em diferentes ângulos e de uma avaliação especializada. Problemas nas raízes dos dentes são uma consequência frequente da alimentação com ração seca. Quando estão em estágio avançado, podem causar olhos lacrimejantes, abscessos ou secreção nasal; sintomas que muitas vezes são confundidos com coriza por veterinários sem experiência específica com coelhos. A dificuldade para tolerar grandes quantidades de alimentos frescos, ou até mesmo alimentos frescos em geral, também pode ser um sinal de doença dentária. A ração seca faz com que o coelho fique saciado muito mais rapidamente. Quantidades pequenas já são suficientes: apenas uma colher de sopa por dia pode fazer com que ele coma menos da metade da quantidade de folhas e outros alimentos verdes que comeria normalmente. Como consequência, os dentes, que crescem durante toda a vida, deixam de sofrer o desgaste adequado. Além disso, a ração é muito moída e contém farinhas em vez de fibras longas, fazendo com que seja pouco mastigada. Os coelhos também mastigam a ração seca de uma maneira diferente da alimentação natural. A ração é praticamente “quebrada” pelos dentes, o que gera uma grande sobrecarga sobre a mandíbula e as raízes dentárias e pode favorecer o crescimento retrógrado dos dentes. Já os alimentos verdes são triturados durante a mastigação. Quando há problemas dentários, muitas vezes é necessário realizar o desgaste dos dentes sob anestesia com um veterinário especializado em odontologia de coelhos, além de fazer mudanças na alimentação.
  • Problemas digestivos: muitos coelhos acabam apresentando diarreia depois de comer alimentos frescos ou passam a não tolerar determinados alimentos. Episódios recorrentes de diarreia ou a produção excessiva de cecotrofos também são consequências frequentes de uma alimentação com ração seca. Alguns animais ainda podem desenvolver prisão de ventre, acúmulo de gases e dilatação do estômago. Existem vários motivos para isso. O intestino dos coelhos possui um peristaltismo relativamente fraco e, por isso, precisa de alimentos com uma estrutura mais fibrosa e grosseira para que o conteúdo intestinal seja transportado adequadamente. A ração seca, por outro lado, é altamente processada e moída, sendo composta principalmente por farinhas. Além disso, os coelhos possuem uma flora bacteriana muito específica em seu sistema digestivo. A alimentação com ração seca pode favorecer o crescimento de bactérias prejudiciais, que se multiplicam e acabam desequilibrando a flora intestinal saudável.
  • Sedimentos e cálculos na bexiga, pedras nos rins e outros problemas urinários: quando recebem ração seca, os coelhos tendem a comer muito menos alimentos verdes. Mesmo menos de uma colher de sopa por dia por animal pode reduzir drasticamente o consumo de alimentos frescos, fazendo com que o coelho passe a ingerir menos da metade da quantidade que consumiria normalmente. A água presente naturalmente nos alimentos não é compensada simplesmente pelo consumo de água. Existem estudos abrangentes sobre esse assunto. Com isso, o sistema urinário pode não ser adequadamente hidratado e “lavado”. Os coelhos possuem um metabolismo de cálcio bastante particular: eles não absorvem o cálcio apenas de acordo com a necessidade do organismo, mas também em função da quantidade ingerida. Quando há uma menor ingestão de água, a urina fica mais concentrada e o cálcio pode se acumular mais facilmente nos rins ou na bexiga. Além disso, a vitamina D adicionada artificialmente às rações secas pode contribuir para a formação de depósitos no trato urinário.
  • Sobrepeso, baixo peso e problemas decorrentes: as rações também costumam apresentar uma densidade energética muito alta. Isso pode favorecer o sobrepeso e, em alguns casos, danos aos órgãos, que posteriormente podem levar até mesmo à perda de peso. O excesso de peso pode contribuir para o desenvolvimento de problemas nas articulações, já que aumenta a carga sobre os ossos. Também pode favorecer problemas digestivos, pois o excesso de gordura pode deslocar os órgãos, e sedimentos na bexiga, já que os animais tendem a se movimentar menos. Coelhos alimentados com ração seca também podem ficar muito mais quietos e “preguiçosos”. Isso acontece por diferentes motivos. A ração é inadequada para a fisiologia digestiva do coelho e pode sobrecarregar o sistema digestivo, permanecendo por mais tempo no estômago. A alimentação também altera o metabolismo. Com uma dieta baseada em alimentos secos, o organismo passa a funcionar de maneira diferente e os animais podem economizar energia, ficando menos ativos. Como a ração possui uma alta densidade energética, o coelho fica saciado rapidamente. Assim, ele não precisa passar tanto tempo procurando, selecionando ou mastigando seu alimento, atividades que fazem parte importante do comportamento natural dos coelhos.
  • Problemas comportamentais: por causa do alto teor energético da ração, os coelhos ficam saciados rapidamente e passam muito menos tempo comendo. Eles podem dedicar apenas cerca de um décimo do tempo à alimentação em comparação com animais alimentados de forma natural. Um coelho alimentado com alimentos frescos pode passar cerca de 80% de seus períodos de atividade se alimentando. Quando o animal passa muito menos tempo procurando, selecionando e mastigando alimentos, sobra muito tempo ocioso. O tédio pode levar a diversos problemas comportamentais, como roer grades, arrancar os próprios pelos ou lamber excessivamente a pele, chegando a machucá-la, entre outros.

“As rações secas comerciais são formuladas pensando nas necessidades aumentadas de animais destinados à reprodução e à produção de carne, que normalmente não vivem por muitos anos. Como alimento exclusivo para coelhos domésticos, que podem viver até 10 anos, essas rações apresentam pouca fibra bruta e excesso de energia e cálcio.

Quando fornecidas continuamente, podem contribuir para:

desgaste inadequado dos dentes
obesidade
disbiose intestinal
cálculos urinários e calcificações
diarreia

Para evitar danos permanentes à saúde dos coelhos domésticos, o ideal é fazer a transição para uma alimentação fisiologicamente adequada, baseada em alimentos frescos, o mais breve possível após a aquisição do animal.”

Dra. med. vet. Hein — uma das principais especialistas em coelhos da Alemanha. Especialista em pequenos mamíferos; Diplomate ECZM (Small Mammal).

Por que a ração seca, como pellets, “müsli” para coelhos e similares, é tão prejudicial à saúde dos dentes?

Os coelhos mastigam os pellets de maneira semelhante à forma como nós, humanos, mordemos algo duro: eles pressionam o pellet com os dentes e o “quebram”. Isso gera uma grande pressão sobre os dentes dentro da mandíbula.

Na parte mais profunda do dente fica uma região muito sensível, onde se encontra o tecido responsável pela formação de nova estrutura dentária. Diferentemente dos dentes de outros animais e dos nossos, os dentes dos coelhos crescem continuamente durante toda a vida. Por isso, eles não ficam tão firmemente presos à mandíbula — afinal, precisam ser constantemente empurrados para cima à medida que crescem.

Com o tempo, essa pressão pode fazer com que o dente seja empurrado cada vez mais para dentro da mandíbula. Em casos avançados, ele pode atravessar o osso, causando olhos lacrimejantes e abscessos na mandíbula ou atrás do olho.

Já com a alimentação natural, os coelhos trituram o alimento em vez de simplesmente mordê-lo e quebrá-lo. A superfície dos dentes possui pequenas saliências e bordas que funcionam como uma espécie de ralador, cortando e triturando o alimento durante a mastigação.

Ervas secas, sementes, flocos de ervilha e similares

O comércio oferece uma grande variedade de petiscos naturais que incentivam os tutores a mimar seus coelhos. Afinal, são produtos naturais! Mas atenção: até mesmo esses petiscos que parecem “saudáveis” à primeira vista podem ser prejudiciais à saúde.

Por isso, eles devem ser oferecidos somente em quantidades muito pequenas e de forma ocasional. Por exemplo:

  • meia colher de chá de ervas secas, duas vezes por semana, colocada em um brinquedo de enriquecimento ou de inteligência;
  • meio floco de ervilha por semana como petisco durante a pesagem.

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